Geral Alerta em Rondônia
Mulher perde mais de R$ 60 mil em apostas online, vende móveis da própria casa e expõe drama da ludopatia
Vítima chegou a apostar o salário inteiro e esvaziou a residência para alimentar o vício em bets; TJ-RO e MPRO alertam para desestruturação familiar, violência patrimonial e superendividamento.
21/10/2026 09h32
Por: Redação Fonte: Folha de Ji-Paraná
Foto: Reprodução Internet

O avanço descontrolado das apostas virtuais fez mais uma vítima de desestruturação financeira severa no estado de Rondônia. Para acompanhar novas atualizações sobre esta notícia e outras ocorrências em Ji-Paraná e região — acesse nosso grupo no WhatsApp.

Uma moradora de Porto Velho perdeu mais de R$ 60 mil em plataformas de apostas online e, para sustentar o vício compulsivo, desfez-se de praticamente todos os bens de sua residência, vendendo dois aparelhos de ar-condicionado, a geladeira, a mesa, o guarda-roupa e as camas.

Em um dos episódios mais críticos, a mulher chegou a apostar a quantia integral de seu salário mensal de R$ 3 mil em uma única rodada, perdendo todo o montante instantaneamente.

Em relato comovente concedido à Rede Amazônica, a mulher narrou que a armadilha psicológica começou de maneira sutil, estimulada por pequenos ganhos inaugurais que mascararam o abismo financeiro construído ao longo de um ano.

A escalada do vício culminou na inadimplência de contas de consumo essenciais, acúmulo de empréstimos impagáveis com juros abusivos e desassistência à saúde familiar, chegando ao ponto de faltar dinheiro para medicamentos vitais do próprio cônjuge.

A intervenção salvadora partiu da filha, que tomou o aparelho celular da mãe, cancelou os aplicativos de apostas e a conduziu para atendimento de emergência no Centro de Atenção Psicossocial (Caps).

A dependência em jogos de azar é classificada formalmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como transtorno psiquiátrico sob o diagnóstico de ludopatia.

O Psicólogo Leandro Missiato, integrante do Núcleo de Apoio Psicossocial (Nups) do Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia (TJ-RO), compara o transtorno à dependência química e alcoólica, caracterizado pela perda progressiva de controle, alienação no ambiente corporativo, ruína das relações interpessoais e danos graves ao organismo.

O drama das apostas e caça-níqueis digitais atinge diferentes esferas no estado. Em São Francisco do Guaporé, um servidor público é alvo de apuração criminal e cível sob a suspeita de desviar cerca de R$ 13 milhões do Fundo Municipal de Saúde, verba pública que teria sido parcialmente torrada no jogo eletrônico conhecido popularmente como "jogo do tigrinho".

O prefeito Zé Wellington confirmou as investigações e a Justiça determinou o bloqueio cautelar de cerca de R$ 500 mil em contas do servidor, em procedimento acompanhado pelo Ministério Público do Estado de Rondônia (MPRO).

Conforme dados consolidados da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, os cidadãos brasileiros movimentaram impressionantes R$ 220,6 bilhões em apostas no ano de 2025, resultando em um rombo direto de R$ 36,9 bilhões que nunca retornaram aos apostadores.

O volume mensal de depósitos explodiu no período, saltando de R$ 12 bilhões em janeiro para mais de R$ 21,4 bilhões em outubro. Uma Medida Provisória baixada em setembro determinou o encerramento e a proibição da publicidade e intermediação das modalidades de quota fixa no país.

No âmbito jurídico em Rondônia, o Nups do TJ-RO já identifica o vício em bets como o estopim de rupturas conjugais em Varas de Família, conflitos de guarda e episódios de violência patrimonial, conduta enquadrada na Lei Maria da Penha, quando o agressor toma rendas e patrimônios da vítima para injetar no jogo.

Para enfrentar a epidemia financeira, a promotora de Justiça do Consumidor do MPRO, Daniela Nicolai, ressalta que o órgão instituiu o atendimento ao superendividamento por meio de sua ouvidoria e do núcleo especializado.

Sem a exigência de contratação de advogados, o cidadão formaliza o pedido para viabilizar audiências diretas de mediação e renegociação com os credores através de planos individuais de pagamento, amparados por cartilhas educativas em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a Secretaria Nacional de Defesa do Consumidor e o Procon de Rondônia.

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O alerta médico e institucional serve como divisor de águas para que famílias identifiquem sinais precoces de compulsão e busquem socorro imediato na rede pública de saúde mental e nos canais de proteção de Ji-Paraná e de toda a região.

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